Em 1970, surgia o Projeto Rondon, uma atividade de extensão universitária que, desde sua concepção, pretendia levar conhecimento e ajuda a áreas mais frágeis e expandir as fronteiras físicas e do pensamento para discentes e para as Universidades. Inicialmente, foi coordenado pelo Ministério da Defesa e realizado em parceria com instituições de Ensino Superior e prefeituras municipais.

Em sua primeira etapa, possuía enfoque na área de saúde. Em 1985, o ex-presidente do Brasil, José Sarney, o extinguiu, mas, em 2005, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o retomou, desta feita abrangendo os oito eixos da política nacional de extensão.

Dessa forma, esse projeto continua com o Ministério da Defesa em parceria com as prefeituras municipais e Universidades, que montam equipes compostas por alunos, para que eles possam desenvolver ações de capacitação e formação multiplicadores nos seguintes eixos, divididos entre conjunto A e conjunto B:

 

CONJUNTO A

CONJUNTO B

Cultura

Comunicação

Direitos Humanos e Justiça

Meio Ambiente

Educação

Trabalho

Saúde

Tecnologia e Produção

Há um processo para a montagem do projeto Rondon e ele se dá da seguinte forma: um edital é publicado pelo Ministério da Defesa, para que ocorra a seleção das Universidades participantes. Nesta etapa, as propostas são enviadas com um plano de trabalho que abranja alguns dos eixos. Caso a instituição seja lecionada, monta-se uma equipe com oitos alunos e dois professores que, por sua vez, desenvolverão atividades junto às comunidades carentes de municípios previamente selecionados pelo Ministério da Defesa.

Todo semestre há uma convocação e as operações acontecem em julho e janeiro. Desde 2005, quando o Rondon foi retomado pelo ex-presidente Lula e passou por uma reformulação, a UEMG Unidade Passos participa do Projeto.  No ano de 2019, a equipe selecionada viajou para a cidade de Novo Oriente do Piauí, no Piauí.

Ser “rondonista”: como esta experiência única muda as pessoas

A Universidade do Estado de Minas Gerais participa constantemente do Rondon e, por isso, vários alunos tornaram-se “rondonistas” durante sua jornada acadêmica. No entanto, ser parte deste projeto não muda somente a vida acadêmica nem possui impacto apenas na jornada profissional. Há impactos que vão muito além: a mentalidade dos participantes sofre uma reviravolta devido ao choque com uma realidade totalmente diferente da sua.

O diretor acadêmico da UEMG Passos, Itamar de Faria, afirma que o Rondon é quase como um “estágio intensivo”.  “O discente sai da sua zona de conforto e vive intensamente, durante cerca de quinze dias, a realidade destes municípios. Isso provoca uma alteração na visão de mundo, na percepção da realidade, e isto é fundamental na vida da pessoa, todo mundo que participa do projeto Rondon volta transformado”, pontua.

Itamar ainda acrescenta que, como projeto de extensão, ele ainda cumpre a missão básica da Universidade, de disseminar conhecimentos e torná-los acessíveis à comunidade. “Para formação dos nossos alunos e também para a formação continuada dos nossos professores, é uma ocasião muito especial,  porque leva a um maior conhecimento da realidade do país, que é essa reflexão permanente sobre formas de intervenção, de como podemos contribuir para a transformação da realidade triste em que ainda vive grande parte do Brasil”, relata.

A essência do Rondon

A aluna do 10º

 período do curso de Direito, Lauriane Rezende Madeira, foi uma das que se beneficiou com essa experiência transformadora. Ela viajou junto com a equipe para Novo Oriente do Piauí e trabalhou nos eixos de Direitos Humanos e Justiça e Cultura.

“Com certeza aprendi mais do que ensinei nesse projeto, o Rondon me possibilitou um novo olhar e isso realmente é algo impossível de se mensurar. A minha vida pessoal já se transformou e, em consequência, todo o meu direcionamento profissional. Por meio deste projeto, alguns ideais mantiveram-se vivos dentro de mim e adquiri uma certeza: gosto de gente, do povo brasileiro e é trabalhando desta forma que quero seguir minha vida. A prática de trabalhar em prol ao coletivo é possível sempre, o projeto é transformação e sou grata por ter participado!”, entusiasmada após a viagem e extremamente grata por todo o aprendizado que pôde disseminar e, também, receber, Lauriane nos diz em seu empolgado depoimento.

Rodrigo Amadeu, aluno do 8º período Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda, trabalhou, junto à Lauriane, no eixo de Cultura e mostrou-se muito efusivo com o resultado de todo o trabalho feito: “Minha função foi ligada diretamente a expressões culturais e comunicativas. Foi um trabalho minucioso para se conectar de modo concreto com pessoas que vivem uma realidade completamente diferente da minha, com uma cultura única e em situação de vulnerabilidade social. As oficinas do eixo cultura eram voltadas para a valorização do indivíduo em si e em seu meio, o resgate e preservação de sua identidade como povo, como cultura e como parte de um Brasil tão rico e cheio de diversidade”.

Antes da ida à cidade de Novo Oriente do Piauí, todos os estudantes participantes tinham altas expectativas. Ao final do projeto, é normal que quase todos tenham suprido ou, até mesmo, superado estas expectativas. Rodrigo é mais um desses alunos. “Ao final do trabalho, era nítido que nos transformamos, estávamos vivendo a realidade de pessoas que, mesmo com diferenças gritantes, acabaram iguais a nós. Esta troca não tem preço. Será uma experiência que vou levar para o resto dos meus dias. Acredito que o modo como você enxerga o próximo após uma experiência como o Rondon nunca mais será a mesma. Essa visão humana adquirida permeia todos os âmbitos da vida e o âmbito profissional não seria diferente”, complementa.

Um colega de Rodrigo nesta jornada, o aluno do 8º período de Biomedicina e participante no eixo Saúde, Irlan Bigaton, concorda com a fala do amigo: “O Rondon vai agregar em muito para minha caminhada profissional e também minha vida social, viver esta experiência nos mostra uma outra realidade, algo inimaginável, conhecer pessoas em diversas situações faz você começar a pensar nas coisas que já possui e no que deseja conquistar no futuro”.

Atuante no eixo Educação, a aluna do 6º período de Pedagogia, Fabiana Chinalia Borges, declara que ver a diversidade do nosso país é sempre enriquecedor, aprender como uma mesma ideia ganha desdobramentos diferentes em realidades também diferentes, compartilhar conhecimento, descobrir a riqueza maior que é a pedagogia, conhecer pessoas que te ensinam o tempo todo, sem a consciência do quanto, e poder dizer a elas a riqueza disso tudo e que elas continuem a fazer porque é de fundamental importância para nossa formação. Fico refletindo o quanto, às vezes, pensamos que só encontraríamos a falta e, ao chegar lá, descobri que, na maioria das vezes, a falta está em nós mesmos”.

Para acompanhar as atividades dos discentes e coordenar a equipe, são enviados dois professores. A professora coordenadora tem várias responsabilidades: como contatar os representantes do município em que ocorrerá o projeto e participar da viagem precursora que, neste ano, ocorreu em abril, quando houve um trabalho de divulgação do Rondon no local e realização de acordos necessários para a efetivação dele. Durante as atividades,  foi a professora coordenadora quem deu auxílio à equipe, articulando com os representantes do munícipio em relação a questões de alojamento, alimentação e transporte dos alunos, além de enviar diariamente relatórios ao Ministério da Defesa.

A docente da Universidade do Estado de Minas Gerais, unidade Passos, Sandra de Souza Pereira, teve sua primeira participação como professora coordenadora durante este ano, no entanto, em 2007, ela participou, como aluna, da Operação Centenário.

Como vivenciou os dois lados do Rondon, ela tem uma visão ampla de como o projeto traz reviravoltas. “Tenho certeza que toda a equipe trouxe no coração e na lembrança cada depoimento, o acolhimento e o carinho que recebemos. Penso que os maiores beneficiados dessa experiência foram os nossos alunos, que tiveram a oportunidade de fazer essa imersão num contexto tão distinto do qual vivemos aqui, eles puderam colocar em prática todo o conhecimento acadêmico adquirido. Eu me senti duplamente realizada, primeiro pela gratidão das pessoas da comunidade e também pela felicidade que eu via no olhar de cada estudante”, conclui a professora.